



De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo” Vinicius de Moraes (1913-1980) Ontem à noite, cansados, mas bem acordados, conversamos sobre muitas experiências e argumentamos sobre possíveis caminhos que pudessem nos levar à criação de revoluções moleculares. O auditório estava repleto de olhos de lince, que nos espreitavam com aquela curiosidade sadia que os alunos têm, famintos pelos nossos argumentos sobre Saúde, corpo, cultura e identidade. Mesa posta, coração acelerado... Lá do alto, antes mesmo de minha fala, eu comecei a "namorar" aquela turma. E foi namorando que meu coração voltou a bater em seu ritmo normal (o coração de professora também dispara nervoso frente a platéias! O meu pelo menos...). H. abriu a Noite com sua voz suave e seu jeito doce de falar... a atmosfera e cada corpo "eu" foi se contaminando por aquela suavidade. Meu corpo sentiu que, de sua fala em diante, os dois corpos da Mary Douglas se uniram, não como um amálgama individual, como uma identidade invanriante, mas como um corpo em processo de singularização. Depois, foi minha vez. Eu tinha preparado uma fala, mas horas antes, desisti daquela idéia. Na articulação mental de meus pensamentos, me dei conta de que o discurso mais autêntico seria aquele que partisse do texto de meu próprio corpo. Corpo protagonista, e receptáculo ao mesmo tempo, da cultura. Um verdadeiro agente da cultura. Falei sem preparar, argumentei na espontaneidade; o texto floresceu a partir de minha carne. Não sei se minha fala realmente tocou alguém, mas eu não sai a mesma dali. Meu corpo foi atravessado pelas "almas, pelos espíritos que pertencem aos agenciamentos coletivos", para parfrasear Guattari. Depois, foi a vez do O. A cada palavra, eu pensava: "Meu Deus, eu realmente sou abençoada. Que sorte eu tenho de ter ao meu lado alguém tão especial, verdadeiramente humano, e tão sábio". O tempo voou e nem percebi, tão gostoso foi estar ali com toda aquela turma. Por que todos os seminários não podem ser assim??? Bom, como as noites foram feitas para dormir e as "Noites de Psicologia" foram feitas para acordar, seguimos dali para o Miau. Omar, Moisés, Camila, Carlise e Michele. (Ah, se eu pudesse levar todos os outros maravilhosos alunos junto comigo no meu bolso). Se no auditório a curiosidade e a suavidade nos alimentaram, no bar, metabolisamos nossas inquietações (claro que a cerveja e o vinho ajudaram no processo) e fomos produzindo modos de subjetivação originais. Foi um momento único, especial, pois voltei a ser aluna de meus alunos e senti que a minha incopletude humana estava sendo preenchida pelos saberes deles. Voltei para casa pensando em quanto é verdadeiro o poema de Guimarães Rosa:
“O importante e bonito é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”.
Nunca mais eu serei a mesma!